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A prece dos humildes atravessa as nuvens (Eclo 35,17)

No inicio desse mês, numa meditação pessoal, me vi envolvido na questão da humildade. Fiquei pensando o que significaria tal palavra. Por isso, gostaria de, neste espaço, falar um pouco sobre ela. Comumente vê-se a origem da humildade na baixeza. Na negação de si mesmo etc. De fato, o mar só é grande e poderoso porque foi capaz de colocar-se abaixo dos rios, para deles captar toda a água. Eu o imagino cônscio de sua importância sendo grande. Dele os pescadores podem tirar seu sustendo, pode-se navegar por ele etc. Ele se sente importante e alegre sendo assim.Contudo,a humildade é a virtude moral que consiste em ter para si mesmos aquela estima-respeito, que corresponde à verdade da própria configuração, dentro do mundo criado e salvo por Deus, na ótica da elevação a filhos de Deus, sempre capazes de se aperfeiçoarem. É virtude que não exclui a alegria e a satisfação dos bens que se possuem, desde que não sejam atribuídos a si mesmo, mas a Deus, o doador de todos os bens.
      Gostaria de passar-lhes, neste espaço, o que Chiara Lubich, fundadora dos movimentos Focolares escreveu em outubro de 2001 sobre o valor da humildade:
      ”Na sua história feita de longos exílios, Israel freqüentemente fazia a experiência de total impotência diante de acontecimentos que nenhuma força humana poderia ter mudado. E assim adquiria a humildade, ou seja, uma atitude de total dependência e plena confiança em Deus. E justamente na sua condição de povo humilde e pobre, muitas vezes Israel encontrava refúgio e acolhida somente naquele que havia feito uma eterna aliança com o seu povo.
      Além disso, na perspectiva messiânica, o esperado é um rei humilde que entra em Sião cavalgando um jumentinho, porque o Deus de Israel é sobretudo o "Deus dos humildes".
      E, uma vez que todas as expectativas se cumpriram em Jesus, é da sua vida e dos seus ensinamentos que poderemos colher a verdadeira humildade, aquela que torna a nossa oração agradável ao Senhor.
      A vida de Jesus é uma perfeita lição de humildade. Ele, embora sendo Deus, primeiro se fez homem no seio da Virgem Maria, depois se fez pão na Eucaristia, e enfim se fez "nada" sobre a cruz.
      Ele dissera: "Sede meus discípulos, porque sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29); e depois, no lava-pés, ele que era o Mestre, se abaixara para fazer o mais humilde dos serviços. Tinha proposto como modelo as crianças e entrara em Jerusalém montado num jumento. E no final se deixou crucificar, anulando-se no corpo e na alma, para conquistar-nos o Paraíso.
      Mas, por que tudo isso? O que movia o Filho de Deus?
Ele não fazia outra coisa senão revelar-nos o seu relacionamento com o Pai, o modo de amar da Trindade, que é um mútuo "fazer-se nada" por amor, uma eterna doação de um ao outro.
      E Jesus derrama sobre a humanidade esse amor trinitário que alcança o seu auge justamente no ato de doar-se de maneira completa na sua paixão e morte.
Deus mostra, assim, a sua potência na fraqueza. O seu amor é daqueles que elevam o mundo, justamente porque se põe no último lugar, no degrau mais ínfimo da criação.
      É, portanto, realmente humilde quem, seguindo o exemplo de Jesus, sabe fazer-se nada por amor aos outros, quem se coloca diante de Deus numa atitude de completa disponibilidade à sua vontade, quem está vazio de si mesmo a ponto de deixar que seja Jesus a vivê-lo.
E então a sua oração será atendida, porque quando ele pronuncia a palavra Abbá-Pai, não é mais Ele quem reza; sua oração obtém aquilo que pede, pois é colocada em seus lábios pelo Espírito Santo.
      O ponto culminante da vida de Jesus foi o momento em que Ele "dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas àquele que tinha poder de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus" (Hb 5,7-8), ou seja, por causa da sua oração inspirada na total obediência à vontade do Pai, devido ao seu pleno abandono a Ele.
      Eis, assim, a oração que atravessa as nuvens e atinge o coração de Deus; a prece de um filho que se levanta da sua miséria para lançar-se confiante nos braços do Pai”.
      Para não perder o costume de contar historinhas que nos ajudam, eu acho, vai mais uma:
      Há muito tempo, num reino distante, havia um rei que não acreditava nos desígnios e na
bondade de DEUS. Tinha, porém, um súdito que sempre lhe lembrava dessa verdade.
      Meu rei, não desanime,seja humilde, dizia o súdito... Tudo que DEUS faz é perfeito. ELE nunca erra, basta sermos humildes para reconhecermos a ação de Deus em nossas vidas.
      Um dia, o rei saiu para caçar, juntamente com seu súdito, e uma fera da floresta o atacou.
      O súdito conseguiu matar o animal, porém, não evitou que sua majestade perdesse o dedo mínimo da mão direita. O rei, furioso pelo que havia acontecido, e sem mostrar agradecimento por ter sua vida salva pelos esforços de seu servo, perguntou a este: - E agora, o que você me diz ? DEUS é bom ? Se DEUS fosse bom eu não teria sido atacado e não teria perdido o meu dedo.
      Meu rei, apesar de todas essas coisas, somente posso dizer-lhe que DEUS é bom, que mesmo isso, perder um dedo, é para o seu bem. Tudo que DEUS faz é perfeito.ELE nunca erra. O rei, indignado com a resposta do súdito, mandou que o mesmo fosse
preso na cela mais escura e fedida do calabouço. Após algum tempo, o rei saiu novamente para caçar e aconteceu dele ser atacado, desta vez por uma tribo de índios que vivia na selva. Esses índios eram temidos por todos, pois sabia-se que faziam sacrifícios humanos, para seus deuses. Mal prenderam o rei, passaram a preparar o ritual do sacrifício. Quando já estava tudo pronto,
e o rei já estava diante do altar, o sacerdote indígena, ao examinar a vítima, observou furioso:
      - Este homem não pode ser sacrificado, é defeituoso !!! Falta-lhe um dedo !!! E o rei foi libertado.
      Ao voltar para o palácio, muito alegre e aliviado, mandou libertar seu súdito e pediu que o mesmo viesse em sua presença. Ao ver o servo, abraçou-o afetuosamente dizendo-lhe: Meu caro, DEUS foi realmente bom comigo. Você já deve estar sabendo que escapei da morte justamente porque não tinha um dos dedos. Mas ainda tenho em meu coração uma grande dúvida:
      - Se DEUS é tão bom, porque permitiu que você fosse preso da maneira como foi ? Logo você, que tanto o defendeu? - Meu rei, se eu estivesse junto contigo nessa caçada, certamente seria sacrificado em teu lugar, pois não me falta dedo algum.
      Portanto, caro leitor, lembre-se sempre: tudo que DEUS faz é perfeito. Ele nunca erra. Saibamos que devemos ser dependentes de Deus, em todas as dimensões da vida, apresentada na perspectiva da historia da salvação, que encontra seu ponto central em Cristo e sua realização na Igreja, pelo Espírito Santo.

Padre Wander de Souza Carmo, nds

                                                                                                                                           Pároco

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